"Citizen Kane"
"Ignorance, ignorance,
sheer ignorance
- you know there's no confidence to equal it.
It's only when you know something about
a profession, I think, that you're timid or careful"
~
Orson Welles
Sinopse
Este filme, que marcou o cinema-mundo, retrata a vida de Charles Foster Kane, um cidadão norte-americano que foi inspirado em William Randolph Hearst, homem de grande importância da impressa norte-americana.
Quanto à narrativa da história, o filme acontece como uma crítica à imprensa sencaionalista.
O filme estriou em 1941.
Enquadramento Histórico
Além dos diversos conflitos armados que arcaram o decorrer do século XX, o cinema não estagnou. Com isso, Orson Welles escreveu, produziu e dirigiu o filme Citzen Kane que estreou precisamente durante o período da emigração em massa para os Estados Unidos da América.
Contudo, não é só pela data invulgar de estreia deste filme que este se destaca dos seus contemporâneos. Citzen Kane, é a crítica do controlo supermassivo de conhecimento que foge da linearidade que os filmes costumam ter, tornando-se assim, num filme imprevisível. O jornalismo sensacionalista é um dos grandes focos de critica que o realizador quis emancipar, mostrando-o como um foco de desinformação e de jogo de poder e de negócios.
Aos olhos dos amantes de
cinema, este filme é considerado uma tentativa de começar um novo estilo
cinematográfico, sendo ele uma mistura de várias técnicas, unificadas numa só.
Chegou a ser considerada uma obra inovadora, e radical.
Produção
Técnicas de Produção
A imagem deste filme é essencialmente marcada pelas suas divergências com os restantes filmes da época. Por esse mesmo motivo, Gregg Toland, diretor de fotografia do filme Citizen Kane, quis trabalhar com Welles para explorar esses novos planos e novas técnicas.
Os primeiros experimentos realizaram-se da forma mais económica possível, sendo estes capturados dentro de uma antiga sala de projeção de um dos estúdios. Já as seguintes cenas, foram gravadas num club noturno onde a equipa de realização prevaleceu durante 10 dias. Além desses dois cenários, Wells gravou ainda em dois outros cenários que foram usados para a produção de dois outros filmes. Contudo, a primeira cena oficial a ser gravada foi o plano sequência do café da manhã entre Kane e a sua esposa.
Visto que se tratava de um filme fora do comum, os produtores da RKO ficaram reciosos com o sucesso do filme, portanto, para economizar o dinheiro da produtora, Wells ensaiou inúmeras vezes antes de colocar a câmara a filmar.
Quanto ao som, podemos constatar que estes se igualmente desviavam dos padrões básicos do cinema de Hollywood. Havia quem afirmava que estes padrões base não poderiam ser ultrapassados, mas Wells mostrou o contrário e provou que o desvio era possível.
Trata-se de uma banda sonora complexa e chega a aparentar ter sido manipulada, todavia, o áudio ouvido é o original gravado por Bailey Fester - posteriormente regravado pelo engenheiro James Stewart.
Tal como na rádio, a produção utilizou técnicas de sobreposição de vozes e de diálogos que eram maioritariamente utilizadas pelas principais estações. Com o uso desta técnica, podemos afirmar que Wells conseguiu alcançar aquilo a que posso comparar e chamar de DolbyAtmos da década de 40, uma vez que o som aparentava ter profundidade. Todos os efeitos sonoros foram da sua autoria, descartando a utilização dos da biblioteca da produtora.
No espaço da montagem, uma das técnicas utilizadas foi usar uma sequência episódica no mesmo cenário, enquanto os atores trocavam de roupa e maquilhagem nos bastidores. O filme continha longas dissoluções com o propósito de expressar a longa passagem do tempo e do seu efeito psicológico. Um exemplo claro dessa situação é como na cena em que o trenó abandonado fica coberto de neve depois que o jovem Kane é mandado embora com Thatcher.
Certos historiados do cinema acreditam de Welles foi influenciado pelas teorias de edição de Sergei Eisenstein que usava cortes estridentes que causavam grandes contrastes gráficos.
O editor deste filme foi Robert Wise com a assistência de Mark Robson, mas podemos afirmar que todas as ideias de edição foram instruídas por Welles.
Análise da Estética
O foco profundo prolongado é um dos aspetos mais inovadores do filme. Primeiramente, isto conseguiu-se através de experiências com lentes e iluminação e, através do foco central, foi possível fotografar as diversas ações num raio bastante vasto.
Foram usadas câmaras em ângulos baixos voltadas para cima, fazendo com que alguns tetos aparecessem nas filmagens. Aléas, Welles foi o primeiro realizador de Hollywood a mostrar o teto de um estúdio de gravações. Foram estes ângulos que lhe trouxeram um novo fascínio, fazendo com que grande parte das cenas terem sido gravadas de um angulo baixo.
Welles rejeitou aquilo a que intitulamos de narrativa linear. Decidiu contar a história do personagem principal única e exclusivamente através de analepses e flashbacks. Além disso, neste filme existia mais do que um narrador, sendo a história contada por inúmeras personagens (técnica que não era utilizada nos filmes de Hollywood). Cada um dos narradores contava uma parte diferente da vida de Kane, sendo que uma história sobrepunha outra e outra e outra.
Mensagem do Filme
O filme é marcado pela descoberta do ódio. Ódio esse referente aos negócios sujos, ao egocentrismo, à corrupção e à manipulação que existem no mundo jornalístico. O público, que se deslocou até a uma sala de cinema para ver este filme acabou por sair de lá com uma profunda repulsa e com a sensação de que tudo aquilo que sabiam simplesmente poderiam ser fruto de um prévio jogo de negócios.
O legado da vida de Charles Foster Kane é, sem sombra de dúvida, o foco essencial deste filme. Com isto, Welles procurou descrever toda a sua história de vido começando o filme com uma prolepse do dia da sua morte. A fim de descobrir o significado das suas últimas palavras, são entrevistados aqueles que lhe eram mais próximos. O que acabamos por descobrir é que a vida de Kane era monótona, aliás, uma típica vida de um homem solitário. Desde pequeno viu-se na obrigação de seguir a vontade dos outros, mesmo quando ninguém se interessava por ele. Por fim, já na conclusão da intriga é que se descobre que "Rosebud", a sua última palavra, era o nome do seu trenó que o remetia à única época feliz da sua vida.
Em suma, a mensagem do filme, a meu ver, é que o dinheiro não compra a felicidade. Kane passou de um homem rico, para um homem pobre e que, ao longo da sua vida, não teve o mais importante - o carinho de uma família.
Reflexão Pessoal
O filme Citizen Kane é um filme que, tal como podemos ver, marcou a história do cinema. Deste modo, vemos que a sua marca histórica está presente na inovação da música, da fotografia, das novas técnicas e da inovadora estrutura narrativa.
Foram usados ângulos pioneiros e Welles foi o primeiro a mostrar o teto do cenário num filme de Hollywood.
A meu ver, este filme só comprovou que, ao regermo-nos ao normal, nada se inova nem nada de renova. Foram encontradas novas técnicas, foram implementadas outras, foi usada uma mistura tão incomum de aspetos que o resultado só poderia ser desvendado de lupa a cada frame. Contudo, o mesmo não aconteceu. Welles conseguiu inovar e criar um filme que mudou a maneira como a imprensa era vista. Aquele universo de prestigio que o jornalista tinha, passou a ser olhado como realmente era: negócios sujos e manipulações.
Assim sendo, só me resta afirmar que o filme CITIZEN KANE realmente é um filme que marcou a história do cinema e que, de certa forma, ainda a marca contando já com 81 anos de existência.
Documento Académico
Autoria de João Costa, publicado a 29 de abril de 2022 em joao-costa2.webnode.pt
Última edição a 7 de maio de 2022
