Documental e Ficção

Durante a história do cinema, é notório que existiram marcos históricos fundamentais para existir um cinema igual ao que existe hoje. Um exemplo claro disso foi quando Vertov nos apresentou o primeiro filme documental de sempre.
Assim sendo, esta primeira análise fílmica da Unidade Curricular realizada por mim pretende estudar o que veria de uma produção documental para uma fictícia. O que diverge em termos de estética e de imagem?
O estudo d'O Homem com a Câmara de
Filmar e do filme ficticio de 1927 Metropolis
é algo fundamental para quem quer compreender a essência de ambas as tipologias
de filme.
Enquadramento Histórico
- Documental
Dziga Vertov é o grande nome no mundo do cinema que introduziu a imagem documental na sétima arte, durante os últimos anos da segunda década do vigésimo século. As suas obras são dotadas de algumas características poéticas e outras políticas. Aliás, essas características políticas eram bastante comuns no cinema soviético. Por norma, o cinema da URSS era extremamente socialista e propagandista. O cinema foi ainda usado com o cariz de educar a sociedade que ainda era, em grande parte, analfabeta.
O filme "O Homem da Câmara de Filmar" foi a primeira grande produção documental da história do cinema. Esta não teve nenhum ator a contra encenar ou algum roteiro pelo qual o realizador se pudesse orientar. A primeira mensagem que aparece no filme é exatamente referente a isso, nenhum ator, nenhum estúdio nenhum cenário. Por esse mesmo motivo, a sinopse deste filme revela apenas aquilo que era a realidade: um operador de câmara sobre o processo de gravação, ou melhor dizendo, rodagem da fita.
- Ficção
Metropolis, um dos filmes a ser analisado neste trabalho, é um filme expressionista proveniente da Alemanha, do ano de 1927. Surgiu numa época complicada, entre nove e dez anos após o fecho da primeira guerra mundial, onde os regimes totalitários começavam a tomar conta dos países europeus. Além do demais, este filme ainda veio a perder algumas cenas devido à censura que esses mesmos regimes políticos impunham sobre o cinema. Contudo, isto não impediu o filme de ter o sucesso que veio a ter juntamente com o passar dos anos.
Referindo agora as distinções entre a ficção e o documental daquela época, podemos dizer que são as mesmas que as atuais. A ficção, ao contrario do documental, cria uma história totalmente irreal e fictícia. Metropolis é um exemplo claro disso visto que, apesar de ter sido lançado no ano de 1927, o filme conta-nos uma narrativa que acontece no ano de 2026 onde, claramente, se visionava o futuro com objetos que não existiam, tecnologia que não existia e muitos outros aspetos que divergem com a realidade como a conhecemos.
Conceitos Base
- do Cinema Documental
Tal como é do conhecimento geral, o cinema documental pretende, acima de tudo, descrever um facto verídico que tenha ou esteja a marcar a história do mundo. Esta tipologia de filmes baseia-se, essencialmente, em factos verídicos. Contudo, tal como cada indivíduo tem uma visão única sobre cada acontecimento, o cinema documental também descreve apenas uma visão dos acontecimentos vividos.
Conforme o que já referi anteriormente, volto a frisar que o roteiro é totalmente aberto ao realizador. Não existe, em circunstância alguma, um momento que tenha sido por ele previsto previamente. Por esse motivo, existem três universos que se entrelaçam: o do realizador que tenta descrever em filmagens aquilo que os seus olhos veem e o que a sua mente pensa; o do filme, que representa tal e qual aquilo que foi gravado; e o do público que apenas existe porque o do realizador e do filme existem. Este diverge dos anteriores porque cada espectador do filme terá uma perceção e uma visão diferente daquilo que assistiu.
- do Cinema Ficção
A ficção trata-se, nada mais nada menos, de um jogo enganoso. O realizador, mesmo que se tenha inspirado em factos reais, falsificará sempre a história criando, assim, um universo imaginário. Neste tipo de filme, pode-se moldar quer o ambiente quer os elementos que compõem o filme a fim de termos uma narrativa conforme o planeado. É aqui que se pode simular e alterar a realidade conforme o que queremos, de forma a não ter qualquer consequência.
Desta forma, o cinema ficcional é apenas um conjunto de sons e imagens que revelam um teor fictício na nossa mente.
Por outro lado, o cinema ficcional também é usado como arma em prol do fim de certos estereótipos que não são aceites pela sociedade. A ficção quer e vai além das fronteiras para um mundo desconhecido e inovador, trazendo sempre o futuro para a frente.
Estética
- Documental
O filme d'O Homem da Câmara de Filmar diferenciou-se de qualquer outro filme por ter uma boa montagem e uma exploração da imagem desconhecida até ao momento.
Como o ser humano têm a visão limitada, Vertov decidiu desenvolver uma nova estética, baseando-se nas escassas capacidades de visão do olho humano.
Este documental proporciona-nos uma expriência inédita com sons e imagens organizados de uma maneira tão cuidadosa que ate consegue representar as mais simples impressões de um tema diverso. A constante repetição das imagens e o próprio som, que vai e vem, provocam no espetador uma curiosidade sobre o que acontecerá na seguinte cena.
Com este filme, nós, espectadores, conseguimos entender que um dia a dia na cidade naquela altura, não tem nada a ver com o dia a dia de hoje.
- Ficção
Metropolis foi o jogo que Fritz Lang jogou e saiu vitorioso com uma realidade que, de todo, não existe. A estética deste filme faz-nos deparar com um universo extremamente sentimental. O uso de cores escuras que demostram com clareza o desespero, a angústia e a revolta sentida em queremos saber o que irá acontecer nas seguintes cenas. Não há conversas, não há diálogo, apenas uma música continua que se intensifica nas cenas onde a emoção fica à flor da pele. É a música que dá vida às cenas.
Por outro lado, acontece que os enquadramentos, o tipo de plano e a forma como as próprias personagens se apresentam causam confusão ao espectador.
A situação dos trabalhadores na fabrica e o seu contínuo esforço trazem um grande impacto a quem vê o filme, sendo elas, um abre olhos para a sociedade.
Ainda referente à estética, podemos comprovar que, ao contrário do documental, aqui existe um guião e deve ser respeitado à risca quer pelos atores, quer pelo realizador. Por esse motivo, as imagens são fabricadas, divergindo das imagens reais do género documental.
Produção
- Documental
O filme, apesar de não ter guião, tem algo ligeiramente diferente a que chamamos de pauta. A pauta é a pré-produção de qualquer filme documental onde nela constam os locais onde se pretende gravar. Contudo, ao se tratar de um guião totalmente aberto, o realizador deve ter cuidado em notar a existência de signos alheios ao filme. Já a pós-produção tem uma vasta liberdade em escolher quais imagens mais lhe convêm. Situações inesperadas, situações monótonas irão sempre existir, o que faz com que o papel do editor seja fulcral na conclusão da obra.
Para melhor organização do processo documental, existem três etapas que a produção necessita de seguir para concluir um bom filme: pesquisa; planeamento e argumento. Em suma, a pesquisa é referente à exequibilidade do filme, o planeamento requer a escolha de elementos técnicos e organização de burocracias e, por fim, o argumento que apresenta as possíveis editoras e financiadoras. A organização e o prévio planeamento do som também é um aspeto necessário e essencial sempre que pretendemos ter um bom filme.
- Ficção
Seguindo o mesmo esquema da produção documental, a ficção também tem uma etapa de pré, pós e durante produção.
A pré-produção e a etapa onde criamos o guião e o roteiro detalhadamente. é aqui também que selecionamos o elenco e escolhemos que cenários pretendemos utilizar. A produção vai acompanhando as gravações e avalia se o roteiro está, ou não, a ser cumprido e, só no final, durante a pós-produção, é que o realizador avalia se está tudo conforme o seu querer e conforme o previsto.
O som torna-se mais uma vez um critério importantíssimo, uma vez que dá vida e emoção a todo o filme. No fundo, é o som que dita que emoções o espectador vai sentir.
Para concluir, é importante referir que os métodos utilizados nestes filmes com quase uma década de existência continuam a ser aplicadas em filmes atuais.
Metropolis

O filme começa com mistério. É-nos apresentado inúmeros prédios altos e modernos que representam a grandiosidade de uma cidade. A música é agitada o que faz com que o expectador de exalte de curiosidade para saber o que vem a seguir o que vem ainda depois dessa cena seguinte. Devido à presença de carros, ruas estreitas, pontes suspensas e de elevadores, o espectador é levado a pensar que vive no futuro.
Como referi anteriormente, os filmes de ficção exploram além do conhecido, especialmente no combate aos estereótipos. Assim sendo, é notório que este filme não passou ao lado, criticando essencialmente a posição do sexo masculino sobre as mulheres e as crianças. Contudo, esse não é o único problema que este filme visa criticar. O medo de que o homem venha a ser substituído pela máquina é tão grande que as próprias personagens se sentem incomodadas, porém, ao aparecer um novo salvador, instala-se um novo mundo de esperança. Além disso, o amor é ainda abordado através de um jovem casal que, perdido de amores, os levam para a "guerra" dos operadores pondo-se à frente do progenitor de um dos jovens. Assim sendo, podemos concluir que o filme pretende-nos dizer que o Homem está destinado a muito mais do que aquilo que foi previamente definido.
Em suma, o filme encoraja o seu espectador a seguir um movimento de revolução contra qualquer tipo de opressão que o envolva. Claramente, pode não ter sido devido ao filme, mas realmente houve revoltas ao longo da história. Emancipações femininas, lutas contra homofobia, derrota do racismo, etc. Muitas delas sim, ainda existem, e ainda bem que existem.
O Homem com a Câmara de Filmar
O filme inicia-se no interior de uma cidade onde o principal foco são as pessoas e os objetos que se encontram em constante repetição de movimento, sendo que a música vai oscilando para diversificar a curiosidade do espectador.
O filme revela-nos que a camara de filmar veio para mudar o mundo. Tal como o desporto é uma fome quer para quem o pratica quer para o quem assiste, da mesma maneira que a higiene é necessária para haver qualidade de vida, do mesmo modo que a vida requer adrenalina, a sociedade precisa da máquina de filmar. A camara realmente veio a ter esse papel, e ainda bem que teve.
Para além do demais escrito, o filme representa ainda o ponto de vista da sociedade sobre si mesma. Aquilo que fazem consciente e inconscientemente. Não pretende representar nada mais além da vida quotidiana da sociedade russa tendo apenas uma personagem: o homem da máquina de filmar.
O filme surgiu para testemunhar que não é necessário atores para contar uma história, introduzindo assim um novo género filmográfico. Acima de tudo, o pretendido não é o foco num enredo em específico, mas sim no que verdadeiramente se passa naquela cidade. Por fim, o que importa não é o operador da câmara, mas a câmara no seu todo.
Reflexão Pessoal
Documental e Ficção, diferentes ou parecidos? Bem, a meu ver, a única semelhança que devem de ter é ambos exigirem uma máquina de filmar para ser gravado. Em relação aos restantes aspetos é notório que divergem, seguindo cada um o seu próprio método e caminho.
Todavia, considero que o cinema documental ainda está demasiado relacionado ao estereótipo de que todos os filmes documentais são aborrecidos e pouco produtivos. O Homem com a Câmara de Filmar mostra-nos exatamente o oposto. Mostra-nos que um bom filme documental é capaz de assegurar o olhar do publico ao ecrã, mesmo as imagens sendo das menos apelativas possíveis.
Quanto ao filme Metropolis, vejo que sim, é um bom filme de ficção. Tal como referi na teoria, os filmes de ficção devem de conter mensagens que se oponham a opressões e este filme, este filme tinha isso e consegui prever que em 2026 viveríamos num mundo bastante melhor.
Com certeza vos garanto que a minha perspetiva sobre ambos os filmes vai de desencontro com a vossa, mas acredito que, caso voltasse a ver qualquer um dos filmes, a minha também iria mudar.

Documento Académico
Cartazes retirados de imdb.com
Autoria de João Costa, publicado a 30 de março de 2022 em joao-costa2.webnode.pt
