Pedro Costa

Fala-se em cinema, pensa-se em Hollywood. O cinema nunca se restringiu aos realizadores norte-americano estando espalhado por todo o globo. Assumo que, ao longo dos primeiros dois trabalhos teóricos da unidade curricular em questão, foquei-me essencialmente no estudo de Hollywood e de um realizador que pertence a esse mesmo universo. Todavia, este terceiro trabalho vai abordar o cinema além Hollywood e dentro das fronteiras do nosso pequeno e humilde país.
Assim sendo, como tinha total liberdade de escolha de cineasta, optei pelo estudo de Pedro Costa. Nele vi um método de realização e produção totalmente diferente do que estava acostumado. Agir como um "lobo solitário" num império de comércio de arte pode ser visto como uma tentativa de suicídio, mas Pedro Costa mostra-nos o contrário sendo um autor português bastante bem-sucedido.
Por fim, mais à frente neste trabalho, irei analisar um filme deste autor referindo quer a narrativa quer o meu ponto de vista sobre o trabalho do autor e sobre o filme estudado em concreto.
Fotografia retirada de gettyimages.pt
Biografia
Pedro Costa nasceu na capital portuguesa no dia três de março de 1959. À data do seu nascimento, o progenitor já tinha bastante sucesso enquanto jornalista e realizador de televisão.
Primeiramente, dedicou-se ao Curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Contudo, após compreender que o cinema seria o seu futuro, os seus estudos no Instituto Politécnico de Lisboa, mais especificamente na Escola Superior de Teatro e Cinema, chegando a ter o cineasta António Reis como professor. Este professor influenciou, sem dúvida, o seu futuro percurso no mundo do cinema e ainda bem que o fez.
Iniciou a sua atividade na área do cinema ao lado de Jorge Silva Melo e de João Botelho. Porém, foi no ano de 1989 que realizou a sua primeira longa-metragem intitulada de "O Sangue". Anos mais tarde, durante o início da década de 90, gravou o filme "Casa de Lava" em Cabo Verde. Foi neste país que os habitantes lhe pediram para entregar algumas cartas em Portugal, daí que o cineasta tenha sido conduzido até ao bairro das fontainhas, onde, mais tarde, viria a filmar um total de 3 longas metragens diferentes. Atualmente, Pedro Costa ainda grava algumas cenas nesse mesmo bairro, sendo que hoje encontra-se totalmente demolido.
O último filme a ser lançado pelo autor estreou em 2019 com o título "Vitalina Varela", um filme por ele realizado e escrito em coautoria com Vitalina Varela.
Fotografia retirada de wikipedia.org
Portefólio do Cineasta
Pedro Costa é essencialmente marcado por um estilo próprio de dirigir os seus filmes. A verdade é que estamos acostumados a presenciar uma vasta equipa de produtores, de escritores, deste e daquele departamento, mas os filmes do cineasta em estudo revelam exatamente o contrário. Com uma equipa reduzida ao fulcral, as obras de cinema continuam a ter a mesma qualidade e o mesmo mérito que as grandes produções de dezenas, talvez centenas, de trabalhadores.
Aqui em baixo, segue a lista das produções melhor conseguidas por parte de Pedro Costa, sendo que as três principais contêm a sinopse e algumas notas referenciadas.
(Título original - Ano de estreia)
Cavalo Dinheiro - 2014 é um dos mais recentes filmes estreados pelo cineasta. Neste filme, a paixão do cineasta pelo bairro das fontainhas falou, mais uma vez, alto o suficiente para ser o cenário das filmagens. Nesta narrativa, ima revolução tomou conta das ruas desse bairro; os habitantes, ao contrário do que parece, preocupam-se, na sua essência, em encontrar um homem perdido na floresta, dando assim, a ação dramática ao filme.
Obra escrita e dirigida unicamente por Pedro Costa, conta com vinte e dois prémios atribuídos e vinte nomeações, sendo os prémios de destaque o Cinema Bloggers Award de Melhor Filme Português, Melhor Diretor, e de Melhor Roteiro. O filme conta com Vitalina Varela como uma das protagonistas.
Juventude em Marcha - 2006 conta-nos como um imigrante de 75 anos que veio de Cabo Verde para cá, Portugal, reflete sobre a sua vida de trabalhador e dos dias de descanso que agora vive. Contudo, o descanso não dura durante muito tempo. Veio para Portugal pouco depois do regime de Salazar e, nesse preciso momento, vê o Bairro das Fontainhas, o seu bairro, a ser totalmente destruído por burocracias no novo governo.
Ao contrário do filme anteriormente apresentado, este título conta apenas com duas vitórias e sete nomeações no mundo das premiações, sendo um dos prémios o prémio Andorinha Trophy de melhor roteiro.
Uma das protagonistas deste filme é Vanda Duarte.
No Quarto da Vanda - 2000 é um dos grandes títulos deste autor português. A narrativa desta obra não é muito elaborada. Resumidamente, Vanda Duarte, protagonista, é uma jovem que vive numa zona pobre da capital portuguesa. É dependente de certos químicos e de drogas o que a incomoda muito, tornando-a sensível a tudo que a rodeia. Mas, para piorar a situação e à semelhança do filme anterior, o bairro onde vive, começa a ser destruído pelo governo português.
Este filme é bem avaliado pela crítica contando com uma classificação de 7.1 na plataforma imdb.com, sendo também vencedora de sete prémios e nomeada para outros dois. O melhor prémio atribuído a Pedro Costa foi-lhe assegurado com este filme, sendo ele o France Culture Award do Festival de Cannes para o Cineasta Estrangeiro do Ano.
Outras obras:
- O Sange (1989) - Realizador e escritor;
- Casa de Lava (1994) - Realizador e escritor;
- Ossos (1997) - Realizador e escritor;
- Vitalina Varela (2019) - Realizador e coescritor.
Cartazes retirados de imdb.com
"Vitalina Varela"
O mais recente filme do cineasta em estudo foi o filme por mim escolhido para ser analisado ao detalhe.
Desde já, antes de avançar para a sinopse, gostava de referir que o filme me surpreendeu, pela positiva, em vários aspetos sendo o mais notório que aqui o diálogo é quase nulo, em contraposição ao filme Titanic que analisei no último trabalho teórico. Por outras palavras, os personagens, quer principais quer secundários, apenas trocam raras mensagens orais. O pouco som que nos chega aos ouvidos é sons da rádio, de carros, do próprio vento e barulhos assim semelhantes.
Em suma, o filme em análise narra-se em prol da morte do marido da protagonista Vitalina Varela. Esta depara-se com inúmeros negócios pendentes e, a meu ver, abdicou um pouco do seu luto pessoal para resolver esses mesmos negócios. Sentindo-se triste por não ter tido a oportunidade de viver em Portugal, Vitalina decide reerguer a casa onde o seu marido viveu mesmo que tenha de vir a enfrentar qualquer tipo de obstáculos.
A obra foi realizada por Pedro Costa e protagonizada pela atriz que tem o mesmo nome que o filme, Vitalina Varela. Quanto ao roteiro, o mesmo partiu da junção dos dois artistas criando uma screenplay digna de ter sido nomeada para receber o título de CinEuphoria de Melhor Roteiro.
No mundo da premiação e do comercio de prémios, este filme chegou a ser nomeado para um total de trinta e quatro títulos e chegou a receber um total de vinte e três prémios. À semelhança do que aconteceu no ano de 2000/2001, Pedro Costa saiu vencedor com o Prémio Autores de Melhor Filme e com o Silver Hugo de Melhor Filme. Enquanto diretor, ganhou o CinEuphoria de Melhor Diretor. Vitalina Varela, por sua vez, recebeu na mesma cerimónia o mesmo prémio, mas na categoria de Melhor atriz.
Opinião
«... a abertura de "Vitalina Varela" é algo que enfeitiça e hipnotiza. Tudo parece escuro, mergulhado na noite eterna (...). Alguém morreu, procissões solenes, vozes indefinidas e ruídos longínquos pintam-nos um retrato de luto cósmico, mesmo que ninguém pareça particularmente emocionado pela perda.»
Alves, Cláudio (2019): Vitalina Varela, em análise. Disponível em magazine-hd.com/apps/wp/vitalina-varela-critica-analise-pedro-costa/
Esta crítica ao filme em estudo reflete sucintamente e concretamente todo o monocórdico início do filme. A personagem principal só aparece um pouco mais à frente, cerca de três dias após o falecimento do seu marido, o qual, ninguém chora. Vitalina Varela ainda se questiona se o melhor a fazer não será voltar para o seu país natal, mas acaba por ficar na triste casa que outrora pertencera a seu marido. Este ato é, sem duvida, um dos meus favoritos. Mostra poder de consciência perante uma sociedade que, na época, ainda era, a meu ver, extremamente conservadora.
Por fim, abordando generalizadamente a cor do filme, podemos comprovar que esta é tão, mas tão escura que facilita a compreensão das almas perdidas dos imigrantes em Portugal. Parece que cada indivíduo, cada personagem, está vazio, sem alma. Na minha ótica, daquilo que chegou até mim através da história de Portugal, este filme representa bastante bem o que era um povo que finalmente pode imigrar, mas não nas melhores condições. Devido a um "Zé Povinho" ainda tradicionalista, antiquado e, de certa forma, retrogrado, esse povo nunca teve a oportunidade de viver em condições ditas como humanas, acabando por se tornarem almas vazias.
Atualmente, numa guerra atual
a leste da europa, ainda há quem recuse refugiados que não tiveram outra
alternativa se não fugir? Talvez ainda haja esse "Zé Povinho".
Cartaz retirados de imdb.com; Frames originais do filme - Pedro Costa
Reflexão Pessoal
Quando recebi a proposta de estudar um realizador português nunca me ocorreu a ideia de estudar Pedro Costa que, até então, era-me um nome totalmente desconhecido do mundo do cinema. Pensei em estudar Lionel Vieira ou grandes nomes como esse, mas verdade é que Pedro Costa surpreendeu-me e bastante.
Atualmente acho que vemos filmes só por ver. Não temos aquele ato singelo de nos sentarmos em frente da televisão para ver um filme ou de termos de ir até a uma sala de cinema para ver um filme. Vemo-nos presos a um tipo de filme em concreto só pela facilidade com que passam ilegalmente na internet, que passam em canais específicos desta arte e que passam nos inúmeros bombardeamentos de publicidade nas redes sociais a este ou àquele filme. Com isto, quero afirmar que o cinema não é aquilo que temos estereotipado nas nossas mentes, ou melhor, que a maioria da sociedade tem estereotipado. O cinema de Pedro Costa não tem quase contacto nenhum a nível de discurso. A maior parte do som que chega até nós são os ruídos propositados do autor para melhor descrever o ambiente.
Sem dúvida que esta é a marca deste artista e é uma marca que o distingue bem de, por exemplo, de Lionel Vieira que usa o cómico de linguagem para captar a atenção do espectador.
Um outro aspeto que quero salientar é, após a analise das fichas técnicas dos atores, constato claramente que, por norma, o elenco não varia muito de filme para filme. Um caso claro dessa situação é o de Vanda Duarte que participou em vários filmes de Pedro Costa e ainda tem um outro filme cuja protagonista tem o mesmo nome que ela. O mesmo acontece com Vitalina Varela
Por fim, só me resta aconselhar a verem filmes destes autores para fugirem à uniformidade de conteúdos abordados na maioria dos filmes. É verdade que apenas assisti o filme Vitalina Varela, mas, com certeza, que os restantes filmes me deixarão igualmente impressionado.
Documento Académico
Bibliografia
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: Pedro Costa. Disponível em alumni.letras.ulisboa.pt/memorias-vivas/biografias/decada-70?id=735 .
Alves, Cláudio (2019): Vitalina
Varela, em análise. Disponível em magazine-hd.com/apps/wp/vitalina-varela-critica-analise-pedro-costa/
Plataformas www.imdb.com e www.adorocinema.com para consulta de sinopses, elenco, prémios, nomeações e créditos.
Autoria de João Costa, publicado a 30 de março de 2022 em joao-costa2.webnode.pt





